quarta-feira, 25 de junho de 2008

Uma história sobre a intolerância humana

A autora inglesa Celia Rees se dedica a escrever para adolescentes e jovens adultos, e em seus livros podemos encontrar e perceber algumas reminiscências de sua vida nas Midlands, além de sua paixão pela história americana. As obras Filha de Feiticeira e Sangue de Feiticeira são um bom exemplo dessas reminiscências, o primeiro volume começando nas plagas de Warwick, próximo a Birmingham, no centro da Inglaterra, e o segundo terminando junto à fronteira entre Estados Unidos e Canadá.

As obras tratam de uma história dentro da história. Alison Elllman, num Instituto de Pesquisa em Boston, estuda as páginas de um estranho diário, encontradas costuradas dentro de uma colcha antiqüíssima. A colcha parece pertencer ao tempo dos pioneiros, puritanos que saíram da Inglaterra buscando vida nova nas Américas. A autora das páginas é Mary Newbury, garota que viu a avó ser enforcada como feiticeira nos arredores de Warwick, e que possui uma percepção aguda das coisas espirituais. Mary se encontra a um passo da paranormalidade, e no século dezessete os dons que ela possui podem significar uma condenação por feitiçaria.

A trajetória de Mary, das Midlands até a Nova Inglaterra, e de lá pelas florestas norte-americanas, onde vai conviver com os povos nativos, é pesquisada por Alison não apenas nas páginas do diário, mas em raros documentos preservados há mais de três séculos; e ela só se completa quando a pesquisadora encontra Agnes Herne, jovem deste século, descendente da nação mohawk. Existe uma ligação misteriosa entre Agnes e Mary, e a paranormalidade de ambas converge para desvendar mais aventuras, agora mergulhando no universo dos índios de várias nacionalidades, cujas culturas quase desapareceram quando suas terras foram invadidas e tomadas pelos europeus. A história parece emular os intricados bordados da colcha misteriosa, e envereda pelas tradições nativas, envolvendo não apenas os puritanos mas jesuítas, exploradores franceses e várias nações indígenas em conflito.

Nestes dois livros, Filha de Feiticeira e Sangue de Feiticeira, as tradições xamanísticas que Mircea Eliade e Joseph Campbell tanto estudaram aparecem claramente, ligando num intricado tecido tanto crenças européias pré-cristãs quanto práticas de povos nativos, e mostrando o quanto a intolerância humana – que infelizmente não se limitou ao século dezessete, mas permanece até os dias de hoje – pode destruir vidas e culturas inteiras, tudo em nome de um fanatismo ridículo e injustificado, que teme o que não conhece. Há lições a serem aprendidas aqui, mas que provavelmente não serão vivenciadas pelos herdeiros dos intolerantes daqueles tempos, que, ainda hoje, queimariam as cópias da bela ficção de Celia Rees. Esta excelente autora pode ser visitada em seu site, www.celiarees.com. E, sem dúvida, merece ser visitada também na trama que, com tanta delicadeza e talento, teceu.

Rees, Celia . Sangue de Feiticeira (Witch Child). Tradução de Manuel Paulo Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Rees, Celia. Sangue de Feiticeira (Sorcerer). Tradução de Manuel Paulo Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

2 comentários:

Christian David disse...

Me deixou com vontade de ler. Maldade tua, já tenho tanta coisa me esperando na estante, tanto livro na lista interminável de compras, mas sempre cabe mais uns. São exatamente os meus tipos de livros. Valeu pelas dicas!
Abraços,
Christian David

Jorge Estel disse...

Shelob, com uma resenha dessas, a vontade de ler é bem grande, hehehe... Mas ainda tenho outros muitos livros ainda na lista de espera.

Beijoes do seu filho dúnadan,
=D

P.S.: ah, visite meu blog!