domingo, 19 de agosto de 2007

Crônica de um Fernão dos anos 60


Eu estudei no Instituto de Educação Fernão Dias Pais, em Pinheiros. Na foto ao lado estou usando o uniforme das escolas estaduais da época... e foi um período muito marcante. Segue uma crônica que escrevi homenageando minha "Alma Mater"... o querido Fernão.
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1967.

Eu: 11 anos de idade.

Meu cenário: o bairro de Pinheiros.

A vida passada era uma infância tranqüila, a despeito da turbulência política que desfilava insuspeita pelo pano de
fundo de minha inocência. A vida à frente era uma vasta incógnita, e nem eu nem ninguém àquele momento
suspeitava a amplitude da abertura de
caminhos que o final de milênio descortinaria.

Única certeza da menina que migrava do Grupo Escolar
Godofredo Furtado, na quieta rua João Moura, para o
Instituto de Educação Fernão Dias Pais, na agitada
Pedroso de Moraes: grandes mudanças estavam prestes
a acontecer.

Eu havia passado por 6 meses do cursinho de admissão de
dona Guiomar e dona Iolanda. Na sala de sua casa na rua
Mateus Grou, preparara-me para o desafio, monstruoso aos
11 anos, de ser admitida aos mistérios dos Institutos de Educação...

Testemunho da qualidade do curso primário do Grupo, bem
como do cursinho das duas irmãs, foi o fato de figurar não
apenas entre os primeiros colocados no exame de admissão
do Fernão, mas também no do Caetano de Campos.
Pinheiros, porém, bairro amado da família, teve precedência:
e a rua Pedroso de Moraes se tornaria ponto central
em torno do qual eu gravitaria nos 7 anos seguintes.

Primeira Série A da manhã, 42 meninas vindas de diferentes
Grupos, diferentes antepassados, diferentes costumes.
Durante os 4 anos do Ginásio, com as naturais inclusões e
exclusões, o cerne da turma permaneceu inalterado, e
aquela lista de chamada gravou-se, quase indelével, na
memória. A colônia nipônica era forte presença em
Pinheiros; a lista, que se iniciava com Aiko, terminava
com Yassumi. Recheada pelos mais díspares
sobrenomes, em 1967 tinha início uma coleção de amigas
que, se os anos separariam fisicamente, manter-se-iam
unidas em espírito.
Pois as matérias aprendidas naquele Fernão dos anos 60
gravar-se-iam em nós indelevelmente.

Dos professores, alguns minha memória não deixa escapar.
Dona Maria do Carmo e as exigências da Análise Sintática;
dona Maria Rita, com quem cantamos Allons enfants de la
patrie, le jour de guerre est arrivée,
sem desconfiar que em
Paris outros jovens estariam cantando a Marseillese
ao som do estourar das bombas da polícia. Paris, para nós,
era apenas o ponto com o qual Dona Deolinda nos ensinava
a bordar... e, entre a descoberta da temível Matemática, e o
Canto Orfeônico com as melodias singelas do professor
Aricó Jr., a inesquecível dona Maria José irrompia na sala
de aula descortinando-nos o mundo, entusiasmando-nos
com a transformação das rochas ígneas em metamórficas,
assombrando-nos com a descrição das ruínas de Pompéia,
dos fiordes da Noruega e da garra dos holandeses
que arrancavam seu país do mar.

1967 passou e veio 68, com toda a efervescência em que o governo militar, o tropicalismo, a incerteza, o rock, o AI5, a contracultura e a puberdade nos mergulhariam. Em 69 ouvíamos os Beatles na rádio Excelsior, assistíamos a românticas novelas na incipiente TV Globo, líamos a
Coleção das Moças na Biblioteca do Fernão e começávamos
a conhecer a língua inglesa com o Let’s Learn English de
dona Zilda. Ah, e decorávamos Castro Alves e Gonçalves Dias
para os Jograis da aula de Português: Deus, ó Deus, onde
estás que não respondes? Tu choraste em presença
da morte? Em presença da morte choraste?

Quantos textos declamados sob as luzes de lanternas
cobertas com papel celofane colorido...
superprodução emocionante, que os recursos
informatizados de hoje não imitam!

A década de 70 iniciou-se com nossa entrada no
mundo adulto: tínhamos 14 anos e as salas masculinas
chamavam nossa atenção... Apenas no Colegial o Fernão
nos permitiria o luxo das classes mistas. A timidez era a
regra, apesar das nossas minissaias e dos nossos
jornaizinhos, onde escrevíamos inocentes dissertações
sobre dezenas de assuntos sérios a respeito dos quais
pouco ou nada sabíamos.
Mas escrevíamos, não obstante.

O colegial começou a nos separar. Algumas partiram
para outros colégios, outras mudaram de período; e tantas
de nós iniciaram os primeiros namoros ali mesmo, no pátio
amplo entre as árvores, os murinhos convidativos e a
cantina.

1973 trouxe a formatura e me viu deixar o Fernão.
Pinheiros havia mudado: a rua Teodoro Sampaio, que em 67
ainda abrigava bondes e tinha duas mãos, agora era corredor
de ônibus e centro comercial de intenso tráfego humano.
O Fernão crescera e ganhara a estátua do bandeirante.
O uniforme fora trocado duas vezes, e o comprimento
exigido das saias passara por tantas alterações quanto
nossas flutuações hormonais adolescentes...

Estávamos prontas para tentar o ingresso no mundo
universitário. E partimos daquele ponto comum rumo a
outros lugares, próximos ou distantes, mas sempre
desafiadores. Algumas de nós mantiveram contato;
outras voaram mais longe e sumiram no horizonte. Porém
não há nenhuma de nós, daquela Primeira série A de 1967,
que possa negar a influência enorme que o Fernão
teve em nossas vidas.

Faz já 30 anos que deixei o Fernão, e às vezes ainda
sonho que estou ali dentro, sentada em uma sala de aula;
e é apenas nesses sonhos que um vislumbre da criança e
adolescente que eu fui aflora em mim. Um não-sei-quê
de entusiasmo, de esperança, de medo do desconhecido
e de ansiedade pela abertura de caminhos que o futuro traz...
Então acordo e lembro que não me sento mais em bancos escolares.

Que pena. O meu Fernão ficou parado em 1973.

Mas nunca será esquecido.

4 comentários:

Arlequina. disse...

Que crônica bonita, Rosana, tem um gosto de nostalgia nela muito bom. Algum dia espero me lembrar assim dos meus dias de colégio...

=)

Saudações!


Raíssa, (do GELF. =P)

Sonia disse...

Cara Rosana,

que emoção ler a sua crônica. Também me sinto assim! Espero conhecê-la no próximo dia 29 de setembro, na festa do nosso querido "Fernão". Um grande abraço de uma ex-Fernão, sempre-Fernão.
Sônia Figueiredo
29/9/07

sergio piva disse...

Rosana Rios
Estudei no Fernão Dias, mas saí de lá em 1968.\\Tudo o que voce escreveu acontecia na nossa época.
Não deixe de comparecer ao Fernão dia 29 de Setembro de 2007, às 19:00 horas. Festa de 60 anos de sua fundação.Espalhe para os colegas.
Sergio Piva

joia disse...

Oi Rosana, apesar do tempo decorrido, arrisco umas linhas para parabenizá-la pela crônica. Sou do "velho Ferdipa" formado em 1960, científico, de onde fui a Piracicaba, estudar na "Luiz de Queiróz", onde me formei em 1966. Trazem recordações vc citar a Maria José q me fez reeptir Geografia na 2.ª serie; o Aricó q fazia a gente solfejar o Hino nacional:dófamifasollasollasisidófa...; a Maria Rita c/seu frances pariesiense; acho q vcs ñ tiveram aulas c/ o casla Epinghaus de matema, nem com D. Tereza Alves Seixas, de Latim; sinto mtas saudades da Ruth orrêa Franco q me ensinou a lingua portuguesa pq na minha casa só se falava o japonês. Mais uma vez, parabens e obrigado porfazer-me retornar aos tempos em q sonhávamos em ser gente. Joia.