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Era uma vez um Troll das montanhas que acordou com um mau-humor tremendo naquela noite (Trolls dormem durante o dia, claro). Só que quando o troll foi descer a montanha de onde avistava o vilarejo mais próximo - ele sempre encontrava algum infeliz perdido que virava seu café da manhã - descobriu que TODO o vilarejo estava acordado, fazendo festa em torno de uma grande fogueira.
O troll raciocinou: uma pessoa perdida = café da manhã. Muitas pessoas não-perdidas = tochas, forcados e uma caçada humana (ou trollana). Seu mau humor aumentou mais ainda, quando descobriu que não conseguiria caçar ninguém com aquela muvuca toda no vilarejo.
O troll pensou, pensou, e decidiu esconder-se para esperar a festa na vila terminar. Quando apagassem a fogueira, achou que conseguiria capturar algum humano extraviado para virar seu café da manhã. Andando pela encosta da montanha, encontrou uma caverna que ainda não conhecia - o que era estranho, pois trolls da montanha são especialistas em explorar cavernas subterrâneas. Então ele entrou e começou a percorrer as trilhas descendentes da caverna; será que iam até o coração da montanha?
De súbito, o troll levou o maior susto da sua vida!
Um estrondo ensurdecedor soou, quase fazendo-o cair no chão de pedra da caverna. E olha que não é nada fácil derrubar um troll! Mas o som vinha do chão, das paredes, da caverna inteira, como se ela fosse uma entidade viva e pulsante!
O troll prestou atenção, tentando ouvir a voz da pedra. Afinal, trolls, montanhas e pedras são parentes, por isso a linguagem devia ser inteligível para ele. Para sua surpresa, a voz lembrou histórias antigas que sua mãe Trolla contava quando ele era apenas um trollzinho inocente.
As histórias falavam de seres ancestrais...
E de repente o Troll começou a reconhecer algumas das vozes surdas que vinham da caverna. Uma parecia de seu avô, um troll rebelde que se recusava a comer humanos e virou vegetariano (morreu após ingerir um baobá inteiro). Outra voz lembrava o saudoso tio-bisavô que virou uma estátua de pedra junto com dois amigos, quando um mago perverso os enganou só para salvar uns anões nojentos. Outra voz, por fim, era igual à deliciosa voz de uma trolla que ele amara na juventude, e com quem costumava caçar humanos nas cavernas para o almoço (ah, bons tempos!)
Todas aquelas vozes e mil outras ressoavam na caverna e em seus múltiplos corredores, como se todos os trolls mortos nos últimos milênios tivessem se recolhido àquelas pedras vociferantes subterrâneas! E agora, ao ver um troll vivo, quisessem fugir à morte... escapar dali!
Demorou um pouco para que o troll reaciocinasse sobre o que estava acontecendo e compreendesse que tinha se metido numa situação muito, muito complicada. Acontece que o cérebro dos trolls não é lá muito veloz para processar assuntos que não têm a ver diretamente com arrumar comida, ou com não virar comida.
Porém as vozes eram tão familiares, assustadoras e reais que ele acabou percebendo que: 1. Estava cercado por trolls mortos querendo voltar à terra dos vivos. 2. Aquilo não era legal. Começou a recuar, tentando voltar à entrada da caverna – de costas, pois um instinto lhe dizia que não seria inteligente dar as costas às vozes sinistras. Porém fazer isso não era exatamente fácil. Já não seria para alguém de tamanho médio, imagine-se então as dificuldades de fazê-lo para um troll do tamanho de uma pequena colina e um tanto zonzo porque ainda não havia tomado café da manhã...
E quando tentou recuar na caverna pra escapar das vozes tonitruantes dos trolls mortos, que reverberavam nas pedras e dentro da sua cabeça, o troll tropeçou numa pedra e BADABUUM! Despencou no chão da caverna.
Paredes desmoronaram, uma nuvem de pó de pedra subiu e um terremoto assolou a Indonésia. Mas isso não foi o pior. Ali caído, o troll viu rachaduras nas pedras deixarem escapar coisas diáfanas e indistintas que nada mais eram que o remanescente das consciências tróllicas... E elas pareciam vir para cima dele, como se quisessem possuir algo vivo!
O troll foi recuando como podia, arrastando-se, engatinhando, saltando pedras. A abertura da caverna se aproximava, e de alguma forma ele intuía que as coisas ameaçadoras não o seguiriam para o ar livre! Porém... ao atingir a entrada, ele gelou. Pois lá de fora vinham outros sons – não menos ameaçadores!
Acontece que o povo da vila, ao perceber os tremores de terra e os sons fantasmagóricos ecoando, decidiu investigar de onde vinham – e ali estava a aldeia inteira, pronta para atacar, chegando à boca da caverna.
Tochas e forcados de um lado. Espectros tróllicos do outro. O que um pobre troll mal-humorado e sem café poderia fazer?!
O troll parou. Pensou. E olha que pensar não era mesmo o forte dele! Mas teve uma ideia... Provavelmente a primeira ideia original que teve na vida. A ideia veio de outra lembrança de infância, de uma lenda muito antiga que vovó Trollona lhe contava. A tal lenda falava sobre uma coisa esquisita chamada mimetismo. Ele não sabia o que era isso. Mas sabia que tinha a ver com escapar, esconder-se, disfarçar-se.
Então o troll olhou pro chão e quis ser chão e se sentiu chão. E quando o povo do vilarejo chegou à entrada da caverna e os espectros tróllicos chegaram à boca da caverna, não havia troll nenhum lá, mas havia um chão de pedra novinho em folha...
Ele não tinha, na verdade, virado pedra; estava apenas disfarçado de chão. E conseguia ver tudo que acontecia a seu redor: os humanos na boca da caverna com tochas e forcados, os espectros de trolls mortos saindo das fendas das rochas. Todos imaginando onde tinha ido parar a montanha ambulante que até poucos instantes ´parecia estar ali. Não lhes ocorreu olhar para baixo, onde o troll-mimetizado brincava de ser chão.
A noite ia se transformando em madrugada, que logo viraria dia. Os espectros, sem ter a quem atacar, voltaram para as fendas das pedras e foram dormir seus sonos de coisas mortas dentro dos minerais. Os habitantes do vilarejo, que não enxergaram nada demais dentro da caverna, esqueceram os tremores de terra e começaram a apagar as tochas e a baixar os forcados.
A noite ia se transformando em madrugada, que logo viraria dia. Os espectros, sem ter a quem atacar, voltaram para as fendas das pedras e foram dormir seus sonos de coisas mortas dentro dos minerais. Os habitantes do vilarejo, que não enxergaram nada demais dentro da caverna, esqueceram os tremores de terra e começaram a apagar as tochas e a baixar os forcados.
Logo não sobrava ninguém lá, mesmo porque o dia seguinte era dia de trabalho e todos já tinham festejado bastante...
A manhã nasceu, o sol inundou a região e o troll dormiu. Para sua sorte, não batia sol lá dentro, e assim ele pôde continuar sendo chão sem sustos. Mas quando o sol baixou no horizonte e outra noite nasceu, ele acordou. Estava morto de preguiça, pensando em virar para o outro lado e retomar o sono – mas a fome falou mais alto.
Foi o que o salvou. Pois quando alguém de disfarça de alguma coisa, seja chão ou pedra ou outra criatura, não pode esquecer de voltar a ser o que era. A memória é o que nos mantém iguais, e o esquecimento é um dos grandes perigos para toda criatura mutante.
O estômago do troll roncou de fome. Ele não tinha tomado café na noite anterior e aquilo era incômodo... então se lembrou de que era um troll das montanhas, não um pedaço de chão – e assim que não pensou mais em ser chão, não mais foi chão.
O troll se levantou. Olhou em torno.
Nada. Nem espectros, nem pessoas com forcados. Saiu da caverna e viu que a vila se preparava para a noite. Deu umas voltas para ver se flagrava algum transeunte que pudesse ser capturado e devorado, mas nada encontrou. E já ia ficando mais mal-humorado de novo... quando percebeu movimento montanha acima.
Não era gente, porém; eram algumas cabras saltitando. O troll pensou – lentamente, mas pensou – que, na falta de carne humana, carne caprina serviria para matar sua fome. No entanto, por mais que subisse apressado as veredas do morro, não conseguiu pegar os animais. As tais cabras saltitavam com tanta rapidez que pareciam ter asinhas nas patas, e logo sumiram. O troll descobriu por quê: o arbusto de onde elas haviam fugido estava cheio de frutinhas vermelhas...
No desespero da fome, ele pegou um punhado, jogou na boca e mastigou.
Saboreou. Engoliu.
Seus olhos se arregalaram. Totalmente acordado, o troll sorriu. Seu mau humor se fora...
Voltou para o arbusto, pegou mais um punhado de frutinhas vermelhas do arbusto e lá ficou, mastigando, saboreando, engolindo. Não tinha a menor intenção de virar vegetariano, como o avô rebelde que engolira o baobá.
Mas, naquela noite, ao menos, estava feliz.
De um jeito ou de outro, tinha tomado café.
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